Marilene, uma conversa 18 anos depois do AVC

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Professora faz balanço de sua trajetória de superação e pede paciência aos cuidadores “Sempre tive um sentimento de muita fé, mas não num sentido religioso. Mesmo sem ter certeza se iria conseguir me recuperar, estava convicta de que não iria deixar de tentar, e fugi da autopiedade”. É assim que Marilene Lopes faz um balanço dos 18 anos que se passaram desde que sofreu um AVC (acidente vascular cerebral). No dia 17 de maio de 2001, ela acordou com o braço direito sem movimento e, sem atinar que poderia se tratar de uma situação de emergência, arrumou-se para o trabalho. Ao chegar na empresa descobriu que não conseguia falar, apenas emitir sons sem qualquer significado. Tampouco escrevia nada além de rabiscos. Conhecida pelo dinamismo, era diretora de comunicação e assuntos corporativos de uma multinacional e as pessoas à sua volta imaginavam que estivesse tendo uma crise nervosa. A demora para ter um diagnóstico correto representou um risco a mais para Marilene.
Marilene Lopes: a ex-executiva faz um balanço dos 18 anos depois de sofrer um AVC
Mariza Tavares
Em 2005, lançou o livro “Antes que seja tarde: uma executiva workaholic escreve o diário de seu AVC”, no qual conta que sua vida era movida a adrenalina. Fumava muito e bebia socialmente – o que, por conta dos numerosos eventos aos quais comparecia, era um hábito quase diário. Lembra que, como o AVC não havia deixado sequelas físicas ou motoras, as pessoas festejavam o que parecia ser uma recuperação rápida, mas claramente Marilene tinha sérias dificuldades em nomear as coisas e se expressar. Sua memória recente também havia sido afetada.
Depois de uma licença médica, ainda tentou retomar a rotina profissional, mas isso mostrou-se inviável. “Usava todo tipo de estratégia para seguir em frente, como se não tivesse um problema. Estava num processo de negação e foi um alívio quando decidi parar tudo e me dedicar a cuidar de mim. Hoje não tenho nenhum problema em reconhecer algumas limitações. Quando, por exemplo, me vejo às voltas com um atendente de operadora, logo esclareço que tive um AVC e que meu interlocutor terá que falar mais vagarosamente”, comenta, bem-humorada.
Abrir mão do sobrenome corporativo foi duro. “Foi mais de um ano de muito sofrimento para me adaptar à nova vida. A aposentadoria é difícil para qualquer pessoa, principalmente para alguém que seja obrigado a abdicar de tudo de maneira compulsória. Ninguém está preparado para isso. Aliás, mesmo quem se prepara tem dificuldade de adaptação”, escreveu. Marilene me conta que foi tão workaholic na sua recuperação quanto era no dia a dia como executiva. Foram dois anos de sessões de fonoaudiologia e muita terapia. “Durante dois anos e meio, vivi um período de grande instabilidade emocional e chorava sem motivo, mesmo sem estar deprimida. A terapia foi fundamental”, rememora. Dedicou-se à cerâmica, atividade que interrompeu com pesar por causa de problemas na coluna, e tentou cursar psicologia, mas acabou abandonando o curso por causa das limitações de memória.
A rede de proteção dos amigos foi valiosa e ela acrescenta à lista sua gata, Miss Cat, que morreu recentemente, aos 16 anos. Marilene ainda tem um casal: Black e Soul. Hoje, aos 66 anos, faz musculação e alongamento duas vezes por semana e frequenta um curso de ginástica para o cérebro – “é minha musculação cerebral”, explica. Às sextas-feiras pela manhã, dá aula na PUC-Rio. Sua disciplina é comunicação corporativa, área na qual militou durante décadas, sendo inclusive autora do livro “Quem tem medo de ser notícia?”.
Pergunto que conselho daria para quem cuida de uma pessoa que está se recuperando de um AVC: “é fundamental que quem cuida tenha paciência e deixe que o outro encontre seu tempo para fazer as coisas. Quem foi afetado tem que se esforçar para elaborar mesmo as tarefas mais simples. Gente que me queria bem se impacientava e tentava me apressar, o que só me provocava angústia e retrocesso. Por outro lado, quando estava com alguém que tinha esse entendimento e empatia, eu desabrochava”.

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