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Retirada de gametas de pacientes já sem vida pode ser esperança para outras famílias, defendem pesquisadores especialistas em ética na saúde. Coleta em homens mortos seria possível solução para falta de doadores de esperma
Getty Images via BBC
Depois do último suspiro de vida, o sêmen de um homem ainda pode ser coletado e usado na fertilização in vitro por famílias desconhecidas e com dificuldades de gerar bebês.
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É o que defendem dois pesquisadores na área da ética na saúde em artigo publicado nesta segunda-feira (20) no Journal of Medical Ethics, um periódico especializado no tema.
Eles defendem que tal medida, já testada em experimentos isolados mas nunca aplicada de forma ampla e regulamentada, e que ainda carece de aperfeiçoamento tecnológico, pode ser uma das soluções para a falta de doadores de esperma. Essa oferta insuficiente é uma realidade em países como a Inglaterra e, segundo fontes, o Brasil.
Idealmente, homens submetidos a esse procedimento após a morte deixariam consentimento para tal em vida, mas os autores dizem que seu artigo não teve o objetivo de detalhar as vias legais para isso.
“Existem experiências ao redor do mundo de extração de esperma de um homem morto e posterior uso de técnicas reprodutivas para gerar um bebê. Isso tende a ocorrer em relações entre conhecidos. O que não tem precedentes, porém, é um sistema análogo a outras formas de doação após a morte, com material reprodutivo de uma pessoa morta sendo usado por desconhecidos. Assim, é algo inteiramente novo e nunca foi sugerido antes, tampouco analisado quando à sua ética”, explicou por e-mail à BBC News Brasil Joshua Parker, do departamento de Educação e Pesquisa do Hospital Wythenshawe, em Manchester, Inglaterra, e um dos autores do artigo — ao lado de Nathan Hodson, da Universidade Leicester.
De acordo com eles, há evidências científicas já publicadas de que o sêmen retirado até 48 horas após a morte é capaz de resultar em gestações e crianças saudáveis. Em pacientes sem vida, o esperma pode ser recolhido por meio de estímulos elétricos da próstata ou de cirurgia, e depois congelado e armazenado em clínicas de reprodução assistida.
“Consideramos que os padrões de segurança e qualidade seriam equivalentes a doações durante a vida”, diz o artigo.
Altruísmo
Por que um homem doa seu esperma? Com as experiências atuais, em vida, os pesquisadores apontam para razões como altruísmo, desejo de procriar e deixar sua “marca genética” no mundo, assim como motivações financeiras, a depender do país e a permissão para isso.
Mas há também fatores que podem desestimular potenciais doadores, como preocupações com o anonimato e a exigência de baterias de exames, consultas e compromissos presenciais.
Assim, os autores argumentam que a doação pós-morte concilia as motivações positivas e afasta os principais entraves à tradicional doação de sêmen em vida.
Além de aumentar a quantidade de doações, tal medida contribuiria com a diversificação do estoque — de características físicas e genéticas, por exemplo.
“Finalmente, alguns casais podem ter a preferência de usar o esperma de uma pessoa morta. A informação de que o homem que produziu o sêmen doado morreu pode oferecer um certo grau de simplicidade ao pensar no futuro dessa criança em termos de possíveis interações futuras com um eventual doador”, afirma a publicação, que discute ainda possíveis cenários para as crianças, famílias envolvidas e a sociedade em geral com a eventual doação anônima de esperma após a morte — projeções essas que não apresentam maiores obstáculos ao plano delineado pelos autores.
Risco de vida? Não exatamente
Um dos debates éticos apresentados pelos autores reconhece que, diferente de outros destinatários da doação de órgãos, famílias que receberiam o esperma de um homem morto não estão passando por alguma doença potencialmente fatal.
É diferente também de casos de transplantes que não lidam com risco iminente de vida, mas que melhoram condições existentes e têm impacto na qualidade de vida, como o de córnea.
“A infertilidade certamente causa sofrimento, que pode ser parcialmente apaziguado pelo acesso ao esperma de um doador.”
“Se é moralmente aceitável que indivíduos possam doar seus tecidos para aliviar o sofrimento de outras pessoas por meio de transplantes que melhoram suas condições (como de córnea), não vemos razão para que isso não possa ser estendido a outras formas de sofrimento, como a infertilidade.”
Mas, como apontam os próprios autores, a proposta ainda tem questões em aberto, como a necessidade de consentimento pelo doador ou o poder de veto da família, além da proteção ao anonimato e ainda financiamento ao sistema.
“No artigo, sugerimos que, idealmente, deve ser necessário que o homem tenha manifestado em vida o desejo de doar esperma após a morte”, destacou Parker em resposta à BBC News Brasil.
“Embora na Inglaterra as famílias possam retirar o consentimento à doação de órgãos e anular os desejos dos doadores, permanecemos neutros quanto a isso na publicação. Na realidade, há um extenso debate sobre o veto das famílias e ambos os autores têm opiniões diferentes sobre a moralidade disto, novamente destacando como é uma área eticamente controversa e difícil. Da mesma forma, não respondemos à questão sobre se as famílias deveriam consentir em nome de um homem que não indicou este desejo durante a vida.”
“O que eu diria é que, como o sêmen é um material reprodutivo, isso levanta questões um pouco diferentes sobre o papel da família neste consentimento.”
E no Brasil?
Especialista em direto médico e da saúde, a advogada brasileira Luciana Dadalto diz que a proposta resvala em duas áreas sensíveis juridica e eticamente: as da doação de órgãos e reprodução assistida.
Mais do que isso: no Brasil, trata-se de áreas carentes de uma legislação atualizada e, na sua opinião, satisfatória.
“A doação de material após a morte no Brasil é orientada pela lei de doação de órgãos e tecidos, de 1997 e alterada em 2001. E o sêmen não é nem órgão nem tecido, então, a princípio seria necessária uma interpretação, estendendo a lei à consideração de um material biológico”, argumenta Dadalto, acrescentando que, sob a legislação brasileira, a doação de órgãos após a morte é anônima, diferente daquela em vida, que pode ser direcionada (por exemplo, uma irmã que doa um rim ao irmão).
“Esta lei (de 1997) dá a supremacia para a família. Existem alguns modelos de decisão de doação de órgãos no mundo, e o modelo brasileiro é o que dá à família essa palavra final. Hoje, na prática, que mesmo com a manifestação prévia da pessoa, a família tem a decisão final. Isso faz com que a gente tenha, inclusive, uma das menores taxas de doação de órgãos no mundo.”
Assim, a prática da doação de sêmen após a morte exigiria uma nova regulamentação ou uma interpretação “bastante complexa” da legislação existente — que poderia, finalmente, esbarrar mais uma vez no veto da família.
“Na doação de órgãos, temos uma lei antiga, retrógrada, mas que existe. Já a reprodução assistida não tem lei no Brasil”, resume a advogada.
O que há, segundo a advogada, são interpretações do Código Civil e resoluções do Conselho Federal de Medicina (CFM) a seus profissionais. São essas orientações que fazem, por exemplo, com que no Brasil a doação de esperma seja anônima e não remunerada.
Há, inclusive, instruções do CFM e decisões judiciais permitindo o uso de esperma por viúvas cujos parceiros congelaram seu material e deixaram consentimento em vida — diferente portanto do descrito na publicação no Journal of Medical Ethics, que diz respeito a material retirado após a morte e doado entre desconhecidos.
Assim como o Reino Unido, há sinais de que o Brasil também tem demanda de sêmen maior que a oferta. Conforme mostrou a BBC News Brasil em 2019, uma indicação disso é o aumento de importações deste material.
De 2011 a 2017, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a importação de 1,95 mil amostras seminais (sêmen). Em 2017, de acordo com um relatório do órgão, o índice foi recorde: 860 amostras, um aumento de 97% em relação ao ano anterior, quando foram trazidas 436.
“Além das informações no Brasil serem limitadas, a demanda de receptores é bem superior à oferta, sobretudo porque não é permitido nenhum tipo de pagamento aos doadores, como ocorre em outros países. Há alguns voluntários que doam, mas é um número limitado, e o anonimato não permite saber muito sobre eles”, apontou à reportagem o médico Márcio Coslovsky, especialista em reprodução humana há mais de 20 anos e membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE).
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Na década de 1960, um pequeno grupo de jovens cientistas partiu para alguns dos lugares mais remotos e espetaculares do planeta — e o trabalho pioneiro deles mudou nossa concepção sobre a natureza. Robert Paine descobriu a primeira peça do quebra-cabeça e cunhou o termo ‘espécie-chave’
Passion Pictures/BBC
“Esta é uma história de esperança autêntica, fundamentada na ciência e baseada em experiências da vida real, sobre o que pode ser feito.”
A história a que o biólogo Sean B. Carroll se refere é sobre a recuperação de paisagens, ressurgimento de florestas, retorno de espécies e o florescer de novas vidas.
Tudo isso graças ao trabalho pioneiro de cinco cientistas de quem talvez você não tenha ouvido falar, mas que têm algo importante a dizer.
O telescópio capaz de ver coisas que ocorreram há 13 bilhões de anos
No espaço de seis décadas, cada um deles foi adicionando seu conhecimento para testar uma hipótese — até chegar a uma teoria reveladora.
“Eles viram coisas que ninguém havia visto antes, pensaram coisas que até então ninguém havia pensado e o que descobriram mudou a maneira como vemos a natureza”, diz Carroll, em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
E ele não está exagerando.
Além disso, demonstraram que, embora a intervenção do homem possa ser — e tenha sido — prejudicial ao planeta, ela também pode ser benéfica, “algo que precisamos levar em conta nesse momento”.
O que sabíamos
Todos esses cientistas começaram a partir de uma visão de mundo que talvez, hoje, seja familiar a todos nós.
As plantas recebem luz solar e a transformam em alimento; alguns animais comem essas plantas e, em seguida, predadores se alimentam de alguns desses devoradores de plantas.
A cadeia alimentar é um conceito amplamente conhecido, mas há mais
Cecilia Tombesi/BBC
Mas, na década de 1960, um destes cientistas, o ambientalista americano Robert Paine, se perguntou se os predadores não eram realmente nada além disso, se o seu papel na natureza se reduziria apenas a comer carne na cadeia alimentar.
O problema era como investigar…
“Você não pode tirar todos os leões de um ambiente para ver o que acontece”, escreve Carroll no livro “The Serengeti Rules – The Quest to Discover How Life Works and Why It Matters” (“As regras dos Serengeti – a missão de descobrir como a vida funciona e por que ela é importante”, em tradução livre).
Ele precisava de um lugar onde todo o ecossistema estivesse contido e tivesse um tamanho gerenciável.
Até que encontrou as poças de maré da Baía de Makah, no noroeste dos Estados Unidos, onde havia tudo o que ele precisava: cerca de 15 espécies de organismos, gastrópodes carnívoros se alimentando de cracas, ouriços-do-mar se alimentando de algas…
As poças de maré estavam cheias de vida… e de estrelas do mar
Passion Pictures/BBC
… e, o mais importante, um grande predador: estrelas-do-mar.
“As pessoas veem e pensam: ‘Que lindas!’ Mas elas são ferozes. São grandes devoradoras. Comem cracas, são fascinadas por mexilhões… são os leões das poças de maré”, diz Paine no documentário The Serengeti Rules (“As regras dos Serengeti”, em tradução livre), baseado no livro de Carroll.
Com e sem estrelas
Ele podia dar início então ao experimento.
Paine tirou as estrelas-do-mar de uma das poças de maré, mas de outra, não — e, durante meses, observou o que acontecia.
Logo ele começou a notar as mudanças na piscina sem estrelas-do-mar: os mexilhões começaram a se multiplicar, enquanto outras espécies desapareciam.
As poças de maré foram um laboratório natural para Robert Paine
Passion Pictures/BBC
Após alguns anos, das 15 espécies que existiam originalmente restavam apenas os mexilhões.
Paine retirou espécies diferentes de outras piscinas — mas em nenhum dos casos aconteceu o mesmo.
Claramente, a diversidade nas poças de maré dependia das estrelas-do-mar.
O predador era o bastião do ecossistema.
Os experimentos dele mostraram que em ecossistemas maduros alguns animais são mais importantes que outros.
E decidiu chamar esses animais de “espécies-chave”, por terem um papel vital na estrutura do ecossistema.
A exceção ou a regra?
Paine havia estabelecido as bases, mas era necessário saber se o que descobrira era uma regra de vida ou uma peculiaridade.
Felizmente, a ciência costuma ser um trabalho em equipe — que não precisa ser feito ao mesmo tempo, tampouco no mesmo local.
A lontra-marinha era a espécie-chave na ilha de Amchitka, na costa do Alasca
Passion Pictures/BBC
No sudoeste do Alasca, há uma ilha vulcânica chamada Amchitka, onde você é recebido por uma placa com os dizeres: “Não é o fim do mundo … mas daqui você pode vê-lo”.
O fim do mundo não era exatamente o que o ecologista marinho Jim Estes estava estudando nesse remoto lugar.
O interesse dele estava debaixo d’água, onde havia encontrado uma floresta de algas que, assim como os bosques na superfície terrestre, fornecia um habitat para muitas espécies, incluindo um grande número de lontras-marinhas.
Um dia, Paine resolveu ir até o lugar seguindo um novo ponto de vista: em vez de ver a floresta como o suporte para as lontras-marinhas, pensaria nas lontras como espécie-chave predadora desse habitat.
“Esse foi o começo do resto da minha vida”, conta Estes no documentário.
A lontra-marinha era a espécie-chave na ilha de Amchitka, na costa do Alasca
Getty Images/BBC
Para ver que efeito esses mamíferos carnívoros tinham no ecossistema, ele visitou uma ilha próxima chamada Shemya, onde não havia lontras. Quando mergulhou, em vez de encontrar uma floresta cheia de vida, se deparou com um deserto povoado apenas por ouriços.
Estes sabia que as lontras comiam muitos ouriços, e que os ouriços se alimentavam de algas. Sem as lontras, os ouriços se multiplicaram de forma descontrolada e comeram todas as algas. E, sem as algas, todas as outras espécies haviam desaparecido.
Sem os predadores que a protegiam, a floresta subaquática não podia existir.
Água doce
Na década de 1970, a ecologista Mary Power — que havia sido aluna de Paine e lera os relatórios de Estes — comprovou algo semelhante em córregos de Oklahoma, nos EUA.
Ela notou que alguns desaguavam em uma série de lagos estéreis intercalados por lagos de cor verde esmeralda vibrante.
Depois de investigar, ela descobriu que a diferença se devia à presença ou falta da espécie-chave, que nesse ecossistema era o Micropterus salmoides, um peixe de água doce mais conhecido como achigã.
Mary Power descobriu que o fenômeno também acontecia em água doce
Passion Pictures/BBC
Em terra firme…
O resultado do trabalho de Power nos córregos, de Paine nas poças de maré e de Estes no oceano provou que a hipótese das espécies-chave era verdadeira em uma ampla variedade de ambientes aquáticos.
Faltava um experimento em terra — que foi realizado na Venezuela.
Um imenso lago foi criado com a construção da represa de Guri, no rio Caroni, que deu origem a muitas ilhas, a maioria sem predadores.
O ecologista e biólogo John Terborgh foi quem explorou essas ilhas — e lembra que, quando chegou lá, “parecia que tinham sido arrasadas por um furacão”.
O que antes era uma bela floresta, alguns anos depois era pura devastação…
Passion Pictures/BBC
Em algumas ilhas, as formigas-cortadeiras haviam se reproduzido descontroladamente, dada a ausência de formigas-guerreiras, e, por isso, foram desfolhando as árvores até matá-las.
“O fenômeno se repetia, de diferentes maneiras e com diferentes espécies-chave, mas o resultado era sempre o mesmo: o que havia começado como uma bela floresta verde, em 20 ou 25 anos era apenas devastação”, diz Terborgh.
O mistério das lontras
O que esses cientistas estavam construindo era uma maneira totalmente nova de ver o mundo — derrubando preconceitos e revelando conexões ocultas completamente inesperadas entre as criaturas e a natureza.
Mas ainda faltava entender quão profundas e duradouras eram essas conexões.
Quando Jim Estes retornou à Ilha Amchitka, ficou assustado com o que viu (ou melhor, com o que não viu)
BBC
Essa descoberta ficou para Jim Estes, quando retornou à Ilha Amchitka, no início dos anos 1990.
“Foi uma loucura: quando saí, havia 8 mil lontras; e cinco anos depois, não restava quase mais nenhuma!”
Não apenas lá, mas em todo o arquipélago das Ilhas Aleutas, do qual Amchitka faz parte.
“Se tratava do desaparecimento de várias centenas de milhares de lontras, uma redução de 95% a 99%, elas desapareciam sem que ninguém encontrasse seus restos mortais nas redondezas.”
Logo, Estes notou outra mudança espantosa:
“Nos anos 1970 e 1980, se deparava com uma orca a cada três ou quatro anos. Nos anos 1990, comecei a vê-las três ou quatro vezes por dia… elas estavam comendo não só as lontras, mas também outros animais que tinham sumido.”
O que havia acontecido?
Embora naquele momento não fosse óbvio, aquilo tinha sido obra do controlador-chave: o ser humano.
Muitas vezes, removemos o predador-chave dos ecossistemas naturais — mas, neste caso, não se tratava de eliminar um predador, mas seu alimento.
A causa de desse evento tão dramático foi a caça industrial às baleias, que começou no Pacífico Norte após a Segunda Guerra Mundial e continuou até o início da década de 1960.
Naquela época, as enormes baleias no Pacífico Norte haviam sido dizimadas.
Linda… e faminta
Getty Images/BBC
O sumiço das baleias abalou o ecossistema, uma vez que elas eram grandes e altamente nutritivas para as orcas (que, aliás, não são uma espécie de baleia, pois são da família dos golfinhos), que foram forçadas a diversificar sua dieta.
As primeiras vítimas foram as focas, até serem exterminadas. Em seguida, os leões-marinhos. E, quando estes foram eliminados, foi a vez das lontras-marinhas.
Praticamente tudo foi afetado — do salmão às aves marinhas e águias-carecas. Todo o ecossistema entrou em colapso.
Revolução no pensamento científico
Para Estes, reconhecer que a natureza está conectada em escalas tão vastas de espaço e tempo de uma maneira tão importante foi uma revolução no pensamento científico.
Munidos dessa visão completamente nova, eles começaram a perceber coisas que não se via antes, apesar de estarem bem diante do nosso nariz.
“Se eu te disser, assim do nada, ‘as árvores precisam dos lobos’, talvez isso te surpreenda, mas esse tipo de revelação não surge ao olhar para a natureza como se fosse apenas uma imagem bonita, é o resultado dessa compreensão de como funciona a natureza”, diz Carroll à BBC News Mundo.
Para entender melhor, veja a imagem abaixo… você consegue notar algo estranho?
Esta foto é típica de uma floresta na qual, na ausência de um predador, os cervos se multiplicaram de forma descontrolada
Passion Pictures/BBC
Se você não notou nada de peculiar, é porque nos acostumamos a ver como “normais” paisagens degradadas.
Esta foto é típica de uma floresta na qual, na ausência de um predador, no caso o lobo, os cervos se multiplicaram de forma descontrolada para se tornar uma praga e comeram tudo o que deveria estar vivo entre o solo e os ramos mais baixos que aparecem na imagem.
É uma floresta em extinção: não haverá árvores novas porque foram comidas; portanto, quando estas que estão na foto morrerem, não haverá mais floresta.
E não é um caso isolado.
Na verdade, “grande parte do mundo que vemos hoje em dia está degradado”, diz Carroll.
E, mais uma vez, ele não está exagerando.
Mas tudo isso está soando muito pessimista e prometemos uma história de esperança.
O fato é que falta uma peça fundamental desse quebra-cabeça, descoberta pelo biólogo Tony Sinclair enquanto trabalhava em um dos lugares mais icônicos do planeta: o Parque Nacional Serengeti, na Tanzânia.
Mais de tudo
Quando Sinclair começou a trabalhar em Serengeti — embora ainda não tivesse percebido naquele momento —, o parque nacional mais famoso do mundo estava bastante degradado.
Os gnus tinham sido vítima da peste bovina
Getty Images/BBC
Há 120 anos, uma epidemia de peste bovina, muito semelhante ao sarampo, dizimou os animais locais, particularmente os gnus, cuja população permaneceu baixa por 70 anos, até que, nos anos 1960, os veterinários conseguiram erradicar a doença na maior parte da África.
Quando Sinclair chegou, a mudança começava a ser óbvia.
“Quando cheguei, havia cerca de 250 mil gnus. Oito anos depois, já havia 1,4 milhão”, relembra.
“Era um recorde mundial, a maior população de ungulados do mundo”.
Em 1982, Sinclair participou entusiasmado de uma reunião para contar ao mundo o que estava acontecendo.
“Quando eu disse o número de 1,4 milhão, houve um silêncio mortal. Eu não esperava de forma alguma aquela reação.”
Os colegas dele acreditavam que era irresponsável permitir que os animais se multiplicassem dessa maneira e, na opinião deles, deviam ser sacrificados porque destruiriam o habitat e causariam um colapso do ecossistema.
“Mas, pensei, por que os homens deveriam interferir? Esses ecossistemas existem há milhões de anos sem precisar que os humanos interfiram para se manter.”
Tony Sinclair se recusou a sacrificar os gnus e preferiu confiar na natureza
Passion Pictures/BBC
Ciente de que estava colocando em risco um dos lugares mais icônicos da Terra, a equipe de Sinclair decidiu se manter firme e convenceu as autoridades do parque a não sacrificar os animais.
O censo dos quatro anos seguintes apresentou o mesmo resultado: 1,4 milhão. O ecossistema havia se nivelado sozinho e não havia danos ao meio ambiente.
“Pelo contrário: para nossa surpresa, descobrimos que o ecossistema estava se recuperando por contra própria. De repente, tudo começou a se reconectar”, diz Sinclair.
“Os gnus produziam esterco, que fertilizava as pastagens, que se tornavam altamente nutritivas. E, ao comê-las, havia menos material combustível no solo e, portanto, menos incêndios.
“Isso permitiu aumentar as populações de árvores que provavelmente não cresciam desde o século 19. Essas árvores forneciam mais alimento para elefantes, girafas e muitas espécies de pássaros.”
“E isso atraiu muito mais predadores, porque também havia mais comida para eles”, completa.
“Percebi que o gnu era uma espécie-chave e que, ao contrário do que Robert Paine havia presumido — que a espécie-chave era sempre um predador —, na verdade, podia ser um herbívoro”.
O retorno dos gnus mudou completamente o cenário do parque
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Além disso, e talvez mais importante, o que os estudos de Tony Sinclair mostraram foi que, embora essas espécies-chave estivessem ausentes há 70 anos, a capacidade de recuperação do ecossistema não havia se esgotado.
E quando a espécie-chave reapareceu, o Parque Nacional de Serengeti mudou profundamente: havia mais árvores, mais girafas, mais pássaros cantando, mais borboletas, mais besouros, mais de tudo.
Foi uma prova em larga escala de que a degradação não é uma condenação: é reversível.
Em busca da ‘estrela do mar’
Robert Paine foi o primeiro a vislumbrar isso: se você eliminar a estrela-do-mar, a biodiversidade entra em colapso.
Seis décadas após o experimento dele, ecologistas renomados compararam suas experiências e ficou claro que é assim que a natureza funciona. Em todas as partes.
Eles haviam descoberto as regras da vida no planeta.
“Se você quer consertar algo, precisa saber o que está danificado”, declarou Paine.
E graças a ele e a um punhado de cientistas, é possível averiguar isso.
Veja a diferença que fez reintroduzir o salmão neste rio
Passion Pictures/BBC
Agora, ao nos deparar com paisagens degradadas, em vez de ficar fazendo comentários negativos, pessimistas e fatídicos, podemos nos perguntar: estamos condenados? O destino está selado para esses lugares e espécies?
E, em muitos casos, a resposta é: “Não”.
“Não é que você vai encontrar espécies-chave em todos os lugares, mas elas são predominantes!”, observa Carroll.
É uma questão de encontrar o equivalente à estrela-do-mar para cada ecossistema.
Um exemplo conhecido é o do Parque Nacional de Yellowstone, no noroeste dos Estados Unidos, no qual há cerca de 20 anos, a população de lobos aumentou mediante a intervenção do homem para controlar o número de alces, que estavam afetando seriamente a vegetação do parque.
Com o retorno dos lobos após 70 anos de ausência, os salgueiros se recuperaram, os choupos prosperaram, os castores voltaram e os ursos se expandiram.
E na Argentina, algo surpreendente aconteceu: com o regresso dos pumas para os altiplanos, a grama cresceu e criou um habitat para todos os tipos de criaturas.
Lobos, tão temidos no passado, agora são bem-vindos em Yellowstone
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Os pumas mudaram o cenário dos altiplanos na Argentina
Passion Pictures/BBC
E há cada vez mais exemplos disso.
No Centro-Oeste dos EUA, há pessoas adicionando peixes-chave a lagos verdes e turvos, que se tornam cristalinos.
Nos arrozais, as aranhas são as espécies-chave. Então, se você quiser comer arroz, proteja as aranhas.
Na Escócia, enquanto isso, estão mostrando como as belas pradarias não deveriam ser… pradarias.
Este cercado na foto acima, onde crescem árvores e flores, revela o impacto dos animais que pastam e como seria a paisagem escocesa sem eles.
Passion Pictures/BBC
Este cercado na foto acima, onde crescem árvores e flores, revela o impacto dos animais que pastam e como seria a paisagem escocesa sem eles.
E assim, em muitas partes do mundo, há projetos semelhantes que estão recuperando lugares e espécies.
Ressurreição
Uma das histórias que mais emocionam Carroll é a do Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, que, como costuma acontecer com experiências inspiradoras, começa com uma grande perda: da vida selvagem devido a uma das guerras civis mais longas e destrutivas das últimas décadas (1977-1992).
Mas a paz acabou trazendo o interesse de recuperar o que muitos chamavam de “o paraíso perdido” da Gorongosa.
Hoje, como bem resumiu um artigo da revista National Geographic, “você pode ver a natureza dando um suspiro de alívio”.
Durante a guerra que se seguiu à independência de Portugal, Gorongosa foi um dos principais campos de batalha e foi destruída. Hoje, o paraíso está em processo de recuperação
Getty Images/BBC
“O projeto levou pouco mais de 15 anos e ficamos assustados que as coisas possam se recuperar a essa velocidade”, exclama Carroll, em conversa com a BBC News Mundo.
“Isso prova que, se você dá a ela uma chance, a natureza é muito resiliente.”
“Não é que eu não seja realista… sou um cientista: acredito em dados empíricos!”, completa.
Com base nestes dados, ele se dedica a divulgar que há luz no fim do túnel.
“Grande parte da história humana é sobre superar desafios. Para isso, é necessário lançar mão de energia e perspectiva; o pessimismo é uma profecia autorrealizável e muitos de nós estão preocupados que as pessoas desistam.”
“Não é hora de desistir, é hora de redobrar nossos esforços e perguntar ‘o que pode ser feito’ repetidas vezes.”
“Você precisa se concentrar no trabalho, não no desespero.”


China confirma três mortes, 200 casos e transmissão entre humanos de vírus que causa pneumonia. Viajantes na estação de trem de Pequim, na China, usam máscaras nesta segunda-feira (20) para se proteger do novo vírus que surgiu no país.
Mark Schiefelbein/AP
Um misterioso vírus que causa problemas respiratórios tem colocado a China e o mundo em estado de alerta: o coronavírus já se espalhou de seu ponto inicial, a cidade de Wuhan (centro-leste chinês), para outras grandes metrópoles como Pequim e teve mais de 200 casos oficialmente registrados, com três mortes confirmadas.
Além disso, a China confirmou que o vírus — que causa um tipo de pneumonia — é transmitido de pessoa para pessoa.
Uma grande preocupação é com o Ano-Novo Lunar chinês, cuja celebração começa nesta semana e que leva centenas de milhões de chineses a viajarem pelo país para as festividades.
Há registros de casos do coronavírus no Japão, na Tailândia e na Coreia do Sul. E o fato de o vírus ter se espalhado para além da China faz cientistas britânicos acreditarem que o número de infectados seja maior do que o divulgado oficialmente e se aproxime de 1,7 mil casos.
No Brasil, o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde informa que não há nenhum caso suspeito, mas a pasta diz que enviou comunicado às representações da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) em portos e aeroportos para que viajantes sejam orientados a tomar medidas de precauções em viagens ao exterior e para a “revisão dos principais aeroportos de conexão provenientes da China para identificação e mensuração dos riscos”.
O que é o coronavírus?
Membros de uma equipe médica transportam um paciente para o hospital Jinyintan, onde pacientes infectados por um vírus misterioso estão sendo tratados, em Wuhan, na província central de Hubei, na China, neste sábado (18)
AFP
Chamado de 2019-nCoV, o vírus causa febre, tosse, falta de ar e dificuldade em respirar.
Parece ser uma nova cepa de um coronavírus que não havia sido previamente identificado em humanos — coronavírus são uma ampla família de vírus, mas poucos deles são capaz de infectar pessoas.
Até agora, os cientistas acreditam que a fonte primária do vírus seja animal, provavelmente de um mercado de alimentos em Wuhan, mas ainda não foi identificado o caminho inicial de transmissão.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ocorreram também “limitadas transmissões de humano para humano”. Isso também foi confirmado pela agência de notícias Xinhua, que citou dois casos. É uma novidade: anteriormente, as autoridades chinesas sustentavam que a transmissão vinha se dando pelo contato com animais infectados em um mercado de alimentos em Wuhan.
Por isso, a orientação em locais de risco é evitar o contato “desprotegido” com animais ou com pessoas com sintomas semelhantes aos de gripe e resfriado. Além disso, recomenda-se que carnes e ovos só sejam ingeridos depois de devidamente cozidos.
O estado de alerta atual traz à tona memórias do vírus Sars (também um coronavírus), que matou 774 pessoas em 2002 em dezenas de países, a maioria deles na Ásia. E análises genéticas do novo vírus mostram que ele tem mais parentesco com o Sars do que qualquer outro coronavírus humano.
Acredita-se que o surto surgiu na cidade chinesa de Wuhan
Getty Images/BBC
Por enquanto, a OMS não recomenda restrições em viagens ou no comércio internacional em decorrência do vírus, mas ao mesmo tempo tem oferecido orientação a países para se prepararem.
Aeroportos em Cingapura, Tóquio e Hong Kong estão examinando passageiros aéreos vindos de Wuhan, e autoridades americanas anunciaram medidas semelhantes em três grandes aeroportos do país: San Francisco, Los Angeles e Nova York.
As infecções
Autoridades de Wuhan, cidade central chinesa com 11 milhões de habitantes — e que é o epicentro da epidemia —, afirmaram na segunda-feira (20) que 136 novos casos de 2019-nCoV e uma terceira vítima fatal foram confirmados no fim de semana. Até então, eram 62 casos oficiais.
Até a noite de domingo, 170 pessoas estavam internadas em hospitais de Wuhan, nove delas em estado crítico.
Em Pequim, são ao menos cinco casos confirmados. Um paciente foi diagnosticado com a doença em Xangai (uma mulher vinda de Wuhan).
No exterior, há quatro registros de casos: dois na Tailândia, um no Japão e um na Coreia do Sul. Todos envolvem pessoas que são de Wuhan ou visitaram a cidade chinesa.
Nesta segunda-feira, o presidente chinês, Xi Jinping, fez seu primeiro pronunciamento público sobre o surto, dizendo que o vírus deve ser “decididamente contido”.
Nesta semana, a maioria dos chineses iniciará os festejos (de uma semana) pelo Ano-Novo Lunar, quando viajarão pelo país para visitar familiares. Isso desperta o temor de mais contaminação e de que as autoridades chinesas tenham dificuldade em monitorar o avanço da doença.
Em Wuhan, que é um hub de transportes do país, há quase uma semana as autoridades iniciaram o uso de scanners de temperatura em aeroportos e estações de trem e ônibus. Pessoas com sinais de febre têm sido registradas, recebido máscaras e encaminhadas a hospitais e clínicas.
‘Inquietante’
Especialistas britânicos que estão monitorando a doença afirmam que há sinais para “inquietação”, embora a capacidade de resposta a epidemias do tipo tenha crescido.
“Até o momento, é difícil saber o quão preocupados devemos estar. Até termos a confirmação da fonte (primária da doença), ficaremos com essa inquietação”, disse à BBC Josie Golding, da fundação de pesquisas médicas Wellcome Trust. Ela agrega, porém, que “estamos (comunidade médica) muito mais preparados para lidar com esse tipo de doença” do que no início dos anos 2000, quando houve a epidemia de Sars.
Jonathan Ball, epidemiologista da Universidade de Nottingham (Reino Unido), afirma que “devemos nos preocupar com qualquer vírus que exploram os humanos pela primeira vez, porque (isso significa que) eles superaram uma grande barreira inicial”.
“Quando o vírus está dentro de uma célula (humana) se replicando, ele pode gerar mutações que permitam que se espalhe de modo mais eficiente e se torne mais perigoso”, afirmou Ball.
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O comerciante Joilton Sousa Santos, 23 anos, foi morto a tiros quando trabalhava em sua barraca de churrasco grego, por volta das 14h40 de sábado (18), no Jardim São Luís (zona sul da capital paulista). Um idoso de 75 anos foi ferido por uma balada perdida, em um dos pés, mas passa bem. O atirador não havia sido identificado até a publicação desta reportagem.
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Um dos segredos do sucesso e da permanência das novelas na programação da Globo é a capacidade que muitas tiveram, a partir da década de 1970, de tratar abertamente de assuntos que dizem respeito à realidade do espectador.
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